José Roberto Sales: memória, história e identidade de Varginha

Texto: Marco Bissoli

Um homem de palavra. Assim pode ser definido o escritor varginhense José Roberto Sales. Psicólogo, pedagogo e especialista em história e construção social do Brasil, ele se destaca como pesquisador da história de Varginha e do Sul de Minas.

O encanto pelo mundo começou cedo, por meio dos livros.

“Fiquei encantado com o processo da escrita desde o momento em que aprendi a ler. A partir dos sete anos, descobri o poder simbólico e de sedução da língua. A Língua Portuguesa nos dá a capacidade de nos expressar e de nos situar no mundo”, relembra.

A infância também guarda memórias afetivas marcantes, como a antiga Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, construída em 1850.

“Era uma igreja enorme, com vitrais maravilhosos, vários santos, portas amplas e pé-direito altíssimo. Tudo aquilo me deixava fascinado”, conta.

Na juventude, mudou-se para Belo Horizonte, onde cursou o Ensino Médio e, posteriormente, Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Oito anos depois, retornou a Varginha e ingressou, por concurso público, na Superintendência Regional de Saúde.

Paralelamente à carreira como psicólogo, construiu uma sólida trajetória literária, reunindo 42 títulos publicados. Seu primeiro livro surgiu a partir de um trabalho pioneiro na área de saúde mental no município, publicado em 2000.

“Fui o primeiro psicólogo a atuar na saúde pública em Varginha”, destaca.

O trabalho ganhou repercussão nacional com a publicação de um artigo na revista do Conselho Federal de Psicologia, tornando-se referência no estudo da epidemiologia e saúde mental.

Múltiplas temáticas

Sua produção pode ser organizada em três grandes eixos.

Educação, biografias e formação

No campo educacional e biográfico, destacam-se obras como História de Varginha para Estudantes (2024) e Aurélia Rubião: vida e arte (2015).

Literatura e pesquisa histórica

Na vertente literária e histórica, aparecem títulos como À Outra Margem (2014), além de estudos como A Gripe Espanhola em Varginha (MG) – 1918 (2005) e Espírito Santo da Varginha 1763–1920 (2003).

Religiosidade e cultura

Já na temática religiosa e cultural, sobressai Capelas e Igrejas Católicas de Varginha (MG) 1763–1913, obra que analisa o papel da religiosidade na formação social local.

Entre suas publicações, José Roberto Sales destaca O Silêncio do Patriarca como a mais desafiadora, por narrar 150 anos da história de sua família — um verdadeiro mergulho em suas raízes.

“O processo da escrita é uma busca de sentido no mundo. Meu trabalho versa sobre Varginha, mas também sobre a história brasileira. Tem um apelo universal. Não é memorialista, mas historiográfico, com base científica e fontes primárias como documentos, atas, cartas e arquivos públicos. Eu escrevo pelo absoluto imperativo do desejo”, afirma.

Seu trabalho mais recente e inédito aborda a história do Hospital Regional de Varginha, que completou 100 anos em 2023.

“Li todos os livros de atas do hospital e pesquisei jornais da época. Foi um trabalho muito rigoroso.”

Atualmente, atua como pesquisador voluntário na Fundação Cultural de Varginha, onde já publicou sete obras, sendo seis delas dedicadas às atas da Câmara Municipal.

“O que mais sobressai é a vida cotidiana das pessoas e da cidade nestes volumes. O dia a dia é algo extraordinário quando visto com sensibilidade crítica e sensibilidade”, observa.

O olhar para o feminino

O feminino é um dos traços centrais no modo como José Roberto Sales compreende e interpreta o mundo. Esse olhar se revela em obras dedicadas a figuras marcantes da cultura varginhense, como Oneyda Alvarenga (1911–1984), poeta, folclorista e etnóloga, que foi aluna e amiga de Mário de Andrade (1893–1945), um dos pioneiros da poesia moderna no Brasil.

Também se destaca seu trabalho sobre Aurélia Rubião (1901–1987), pintora formada pela Escola de Belas Artes de São Paulo, aluna de Oscar Pereira da Silva e Enrico Vio, e participante da 1ª Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte, em 1936.

Para o autor, ambas ocupam um lugar singular na história cultural da cidade e do país.

“São as personalidades varginhenses mais importantes do século XX. Não há figura política em Varginha capaz de rivalizar, em relevância cultural, social e artística, com essas duas mulheres. O século XX é delas”, afirma.

Ao refletir sobre o presente, ele ressalta a importância de políticas públicas voltadas à educação e à cultura.

“Precisamos de iniciativas que valorizem nossa história desde a escola. Varginha tem preservado seu legado arquitetônico e cultural de forma exemplar, mas é fundamental ampliar esse movimento”, destaca.

E conclui com uma visão sensível sobre a existência:

“A vida é marcada por uma falta essencial — e talvez justamente por isso não possa ser plenamente compreendida em sua totalidade.”


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